quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Faz de Conta


Artigo de minha autoria que foi publicado na revista Educação Infantil da Editora Minuano - fevereiro de 2012

O teatro é a arte que mais se aproxima das crianças, pois, desde cedo, os jogos simbólicos e as brincadeiras de faz de conta fazem parte da vida delas.

Ao observarmos uma criança brincando de casinha, de mãe e filha ou de escola, notamos que ela imita algumas coisas do seu cotidiano.

Para Vygotsky, existe uma combinação de situações reais com elementos fantasiosos, que surgem da necessidade de reproduzir a vida do adulto, da qual ela ainda não participa ativamente. Essa reprodução é baseada em conhecimentos prévios da realidade. Desse modo, quanto mais rica for a sua experiência de vida, maior será o material disponível para a sua imaginação, que se materializará no seu faz de conta.

A criança é autoexpressiva por natureza e o teatro, nessa idade, deve ser espontâneo. Um dos poucos autores que desenvolveu um discurso sobre o teatro para crianças na fase pré-escolar é o inglês Peter Slade, autor de O Jogo Dramático Infantil. Após 20 anos de observações e trabalhos com crianças, ele definiu o jogo dramático infantil como: “a maneira da criança pensar, comprovar, relaxar, trabalhar, lembrar, ousar, experimentar, criar e absorver.” (SLADE, 1958, p.18).

Existe uma diferença entre o jogo dramático e o teatro propriamente dito. O teatro como conhecemos é uma ocasião com data marcada para apresentação e tem uma ordem, onde os atores e a plateia são separados. No jogo dramático, todos são atores e público ao mesmo tempo, mas nem por isso ele é menos do que o teatro, considerando que pede envolvimento e sinceridade e é vivido fortemente pela criança.

A palavra drama tem origem no latim e significa “eu faço, eu luto”. Ainda segundo Slade, p.18: “a criança descobre a vida e a si mesma através de tentativas emocionais e físicas e depois através da prática repetitiva, que é o jogo dramático.”

O jogo dramático possui duas qualidades que são: absorção e sinceridade. A primeira significa estar totalmente envolvido no que se faz e a segunda é uma forma de honestidade ao dramatizar e para que ela ocorra precisa da absorção.

Toda criança é naturalmente criativa, e cabe ao professor organizar, de forma sistemática, esse potencial, dando oportunidade e encorajamento, o que Slade chama de “nutrição”, que, segundo ele, difere de interferência. O professor pode dar algumas sugestões sobre o que fazer, mas nunca como fazer. O seu papel é o de estimular a participação, sem obrigar, deixando a criança experimentar, e de mediar, ao aproveitar as sugestões dadas pelo grupo.



Para começar um trabalho com teatro na sua turma de Educação Infantil, o professor pode confeccionar uma caixa junto com os alunos, onde serão guardados: chapéus, arcos, perucas, luvas, máscaras, pulseiras, bolsas, óculos, roupas diversas e tudo mais que possa ser usado nas aulas.

O primeiro momento é de exploração, onde as crianças experimentam roupas e acessórios para compor os figurinos. O ideal é que tenha um espelho em sala para que elas possam ver o resultado. Conforme definem o que usarão, sentam-se, aguardando os colegas. Quando todos estão prontos, a caixa é guardada e, conforme combinado anteriormente, não se pode pegar mais nada. Se algo incomodar ou não for necessário, deve ser deixado num canto. Essa medida evita trocas de roupas durante o jogo, interrompendo o grupo.

Em uma roda de conversas, cada criança conta “quem é”: nome do seu personagem, o que gosta de fazer e tudo mais que achar importante. Observa-se que as crianças de 3, 4 anos criam os próprios personagens enquanto as de 5, 6 anos já formulam toda uma situação envolvendo o personagem e as relações que mantêm com os outros, combinadas com os colegas.

Às vezes, surgem muitas ideias ao mesmo tempo e é preciso administrá-las de modo que possam ser aproveitadas e haja um entendimento geral. Ao perceber que a história caminha pela iniciativa dos próprios alunos, o professor pode parar de contar e deixar que eles conduzam, ajudando quando necessário.

A formação dos grupos varia, dependendo no número de alunos e do interesse deles, podendo toda a turma estar envolvida na resolução de um problema ou se dividir naturalmente, cada um com seu interesse específico. Nessa idade nem todos aceitam prontamente a ideia dos colegas, querendo que as suas prevaleçam. Posteriormente o professor deve sugerir momentos em que todos possam estar novamente juntos, criando situações de integração dos subgrupos.

Em uma aula na Amanhecendo Escola para Bebês e Crianças, na Lagoa, Rio de Janeiro, os personagens criados pelas crianças foram: médica de animais, fada, porco, ovelha, leão, ninja e vendedor de gravatas. A menina de 6 anos, que era a médica de animais, tornou-se uma líder natural, levando-os por um caminho em que tinham que passar por cavernas, andar por um chão escorregadio, por caminhos estreitos, entre outros. Todos a seguiam enquanto ela dava ordens como: “esquerda”, “direita”, apesar do caminho continuar o mesmo, em volta da sala, pois as crianças ainda não dominam essas noções.

Houve um momento em que os personagens caíram num buraco imaginário e ela usou a alça de sua bolsa como corda para que eles pudessem subir. Ao jogar a “corda” para a fada, ela se corrige, dizendo: “Ah, a fada não precisa, ela sabe voar. Em outra situação fala: “A doutora esqueceu a bolsa dela.” Referindo-se a si mesma na terceira pessoa.

A história pode seguir caminhos diferentes e é preciso flexibilidade e criatividade por parte do professor, já que o final vai sendo construído à medida que ela se desenrola. A aula deve finalizar de forma calma para que todos voltem a se organizar e a se concentrar para a avaliação. Esse momento é importante para que o professor perceba o que eles gostaram, o que sentiram falta, se querem continuar com o mesmo tema na aula seguinte, o que deu certo e até sistematizar valores que apareceram, como a ajuda ao próximo, por exemplo.

Pode-se ainda desencadear discussões do tipo: Podemos ser felizes para sempre?; Será que a madrasta não podia ficar boa?; E se a princesa não quisesse se casar com o príncipe? Conseguindo, assim, com que a criança pense e elabore essas e outras questões, sem aceitar tudo o que é imposto pela sociedade.

O ser humano tem o poder de inventar, de criar e o teatro nos permite isso. Ele pode ser feito em qualquer espaço, numa sala de aula ou no pátio, tendo ou não materiais disponíveis. Cadeiras viram ônibus ou trem, debaixo da mesa pode ser uma caverna ou se for coberta com um pano, vira uma cabana, se a mesa for colocada de pernas para o ar, ela transforma-se num elevador. O uso de objetos imaginários é permitido, assim como transformar o que se tem em mãos.

Considerando que a brincadeira deve ocupar espaço de destaque nessa faixa etária, a prática dos jogos dramáticos respeita a individualidade e o momento de cada criança da Educação Infantil. Ele possui aspectos do contexto social no qual aparece um problema e deve-se buscar a solução através da prática da ação, sendo necessário um acordo entre todos. As regras são estabelecidas pelo grupo no momento em que a ação está acontecendo. Através dessa vivência social o aluno descobre a si mesmo como participante de um grupo, socializando-se. Os jogos dramáticos são os primeiros passos para a introdução dos jogos teatrais e para o ensino de teatro futuramente.


Referências Bibliográficas:
FERREIRA, Aurora. A criança e a arte – O dia-a-dia na sala de aula. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2008. In: BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1991.

JAPIASSU, Ricardo. Metodologia do Ensino de teatro. Campinas: Papirus, 2003

MACHADO, Maria Clara e ROSMAN, Marta. 100 jogos dramáticos. Rio de Janeiro: Agir, s/d.

PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: Imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
________. O nascimento da inteligência na criança. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.
REVERBEL, Olga. Jogos teatrais na escola – Atividades globais de expressão. São Paulo: Scipione, 2006.
________. Um caminho do teatro na escola. São Paulo: Scipione, 1989.

SLADE, Peter. [1958] O Jogo dramático infantil. São Paulo: Summus, 1978.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

________. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone, 1988.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A criação de um personagem



Existem milhares de personagens espalhados pelas histórias, filmes, desenhos animados, peças de teatro. Cada um com suas características particulares, como: jeito de andar, de falar, trejeitos. A colocação de voz de uma bruxa é diferente de uma princesa, por exemplo. Uma criança não anda da mesma maneira que um idoso.

Fada, camponesa, herói, rei, rainha, homem de gelo ou de lata, animais ou objetos falantes. Podemos inventar tantos personagens quanto a nossa imaginação deixar, pois ela não tem limites.

Um excelente exercício é pedir que os alunos criem um personagem, desenhando-o. O traçado é o menos importante, e sim colocar no papel todas as características possíveis, não só físicas, mas também de personalidade.

As fotos ilustram um trabalho feito com crianças de 5 anos de idade.


Exemplo de uma aula de criação de um personagem

- Conversar com a turma sobre a variedade de personagens existentes. Qual é o preferido de cada um? Qual é o mais estranho? E o mais assustador?

- Cada um deve criar um personagem, através de desenhos, falando ou escrevendo o nome, idade, como ele é, o que gosta de fazer, manias, com quem mora e tudo mais que achar importante. Apresentá-lo para o grupo. Criar um painel com todos os desenhos.

- Todos juntos devem caminhar pelo ambiente como se fosse o seu personagem, passando por várias situações mencionadas pelo professor, como: começou a chover, estavam apressados, machucaram o pé numa pedra, ficaram zangados com um esbarrão, lembraram que alguma coisa ficou em casa e é preciso voltar, estavam cansados.

- Encontro dos personagens. Como o seu personagem age quando encontra com outro na rua? Ele fica feliz, desconfiado, chateado? Falam muito ou são de poucas palavras? Sobre o que eles conversam? Vamos dramatizar esses encontros?

- Sentados em roda, passar um objeto e cada um que estiver com ele em mãos, conta um pedaço de uma história que vai sendo criada na hora pela turma.

- Dividir em grupos e cada participante, encaixará seu personagem na história criada anteriormente pelo grupão, fazendo as adaptações necessárias.

- Cada grupo apresenta a cena criada com a participação de todos os componentes e seus respectivos personagens.
Para a próxima aula, cada um deve criar uma pequena cena individual em que o personagem apareça numa situação atual ou inusitada. Pode ser a mesma situação para todos, como por exemplo, o Carnaval.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A bruxinha que era boa e o fantasminha Pluft


Fiz uma adaptação, juntando duas peças da grande Maria Clara Machado: A bruxinha que era boa e O fantasminha Pluft. Está bem resumido, pois é para ser feito em escolas e não por atores que já dominam todas as técnicas teatrais. Muitas vezes, o menos é mais.

Em alguns momentos não escrevo diálogos, para que os alunos possam exercer a improvisação e a espontaneidade. O texto pode ser modificado de acordo com a faixa etária do grupo, quanto mais velha a criança, maior pode ser o texto.

Ah, eu sou a Bruxa-Chefe, à esquerda da foto, de nariz postiço.


A Bruxinha que era boa e o Fantasminha Pluft

Personagens: Bruxa-Chefe, Caolha, Fredegunda, Fedelha, Fedorosa, Ângela, Pluft, Mãe do Pluft, Maribel, Perna de Pau.

CENA 1
As bruxas voam em suas vassouras, em fila, ao apito da instrutora, viram-se e começam a seguir para o outro lado, ao apito, voltam-se novamente. Até que a Bruxa-Chefe diz:

Bruxa-Chefe - Aos seus lugares! (Elas posicionam-se uma ao lado da outra.) Bruxinha Ângela, você é um fracasso! Não tem jeito! Não sabe nem voar direito. Vamos praticar agora gargalhadas de bruxa.

(A instrutora apita e todas gargalham, menos Ângela, que sorri.)
Bruxa-Chefe - Uma de cada vez agora. (Gargalhadas.) Bruxinha Ângela, você está muito mal, deste jeito irá para a Torre de Piche. Você quer ir para lá?
Ângela - Não! Claro que não!
Bruxa-Chefe - Então trate de aprender bruxarias direitinho.
Ângela – É que eu não gosto muito de fazer bruxarias.
Bruxa-Chefe - Que vergonha! O que você gosta de fazer, afinal?
Ângela - Eu gosto de passear de vassoura!
(Dá voltas na sua vassoura elegantemente.)

Bruxa-Chefe - Isso são maneiras de se comportar numa vassoura? Bruxa Caolha mostre como se faz.
(Caolha dá uma volta, gargalhando bem alto.)

Bruxa-Chefe - Viu como é!? Acho bom você treinar porque amanhã será o grande concurso de bruxas, a vencedora ganhará uma vassoura a jato.
(Todas vibram.)
Bruxa-Chefe - Agora eu quero que vocês treinem suas feitiçarias por aí. Até amanhã no concurso.
(Elas saem rindo e em seguida sai a Bruxa-Chefe.)

CENA 2
Pluft, pensativo, olha pela janela de sua casa e comenta com sua mãe, que trabalha nas tarefas domésticas.

Pluft – Mãe, gente existe?
Mãe - Claro, meu filho. Que pergunta!
Pluft - Ah! Eu tenho tanto medo de gente...
Mãe - Bobagem, Pluft.
Pluft - Ontem eu vi gente. Eles eram 3 e passavam lá embaixo. Eu fiquei com medo, mamãe.
Mãe - Deixa de ser bobo! Gente é que tem que ter medo de fantasma! Onde já se viu uma coisa dessas!
Pluft - Vem alguém ai. Vamos nos esconder.
(Eles se escondem e entra Perna de pau com Maribel.)

Perna de pau - Hum, acho que foi aqui mesmo que o Capitão Bonança escondeu o tesouro. Agora que seu avô morreu, eu vou encontrar esse baú. Venha, menina Maribel, entre. Vou buscar uma lanterna e já volto. (Sai de cena.)
Maribel - Socorro! Socorro! E agora? Quem vai me salvar?

Pluft, que olhava tudo de longe, se aproxima, a menina o vê e desmaia. Ele a observa e cada vez que ela se mexe, leva um susto e se afasta. Ela acorda e os dois se olham assustados e se apresentam.

Pluft - Quem é você? Você é gente?
Maribel - Sou a Maribel. Sim, sou gente e você é fantasma?
Pluft - Sou, meu nome é Pluft. Engraçado, de você eu não tenho medo.
Maribel - Nem eu de você.
Pluft – O que faz aqui?
Ela conta tudo o que está acontecendo para ele. Eles escutam Perna de Pau voltando. Pluft se esconde.
Perna de Pau - Voltei, não achei nenhuma lanterna, mas achei essa vela.
Ele acende a vela e Pluft apaga, ele reclama, diz que é o vento e a situação repete várias vezes.

Perna de Pau - Eu hein, acho que essa casa é mal assombrada. Não quero mais saber do tesouro. Vou embora daqui. (Foge assustado.)

Maribel – (Para Pluft) Eu preciso achar os marinheiros do barco do meu avô, o Capitão Bonança. Eles podem me ajudar a encontrar o tesouro.
Pluft - Ontem eu vi 3 pessoas passando por aqui, tinham roupas de marinheiro, devem ser eles, aqui não vem ninguém, nunca.
Maribel - Então eu vou procurar. Você me ajuda?
Pluft - Ajudo.
(Os dois saem de cena.)

CENA 3
Entram as bruxas voando e se posicionam uma ao lado da outra.

Bruxa-Chefe - Chegou o grande dia do concurso de bruxarias. A vencedora ganhará uma vassoura a jato.
(Todas vibram.)
Bruxa-Chefe - Vamos começar. Primeiro você, Fredegunda. Qual é o ingrediente mais importante do feitiço para fazer dormir?
Fredegunda – Asas de morcego!
Bruxa-Chefe - Isso! Que maravilha! Agora a Bruxa Caolha. Para que serve rabo de lagartixa e bigode de rato?
Caolha – Para fazer fumaça, muita fumaça.
Bruxa-Chefe - Ótimo! Vocês andaram estudando direitinho. Agora é a vez da Fedelha. O que não pode faltar na composição do pó mágico?
Fedelha – Ah, essa é fácil! Pimenta ardida.
Bruxa-Chefe – Brilhante! Todas estão indo bem. Fedorosa é a sua vez. Qual é o feitiço que faz nascer uma enorme verruga?
Fedorosa – Deixa eu ver, deixa eu ver... É... só mais um pouco... Feitiço de lacraia do mato.
Bruxa-Chefe - Magnífico. Vocês são ótimas! Agora a Bruxinha Ângela.
Bruxa-Chefe - Qual é o ingrediente, que se misturado a outros dois, faz uma explosão?
Ângela – Água de rosas.
Bruxa-Chefe - Não é nada disso! Ai, ai Bruxinha Ângela... Você é muito boazinha. Não tem jeito! Não aprende mesmo! Acho que vai ficar uns dias na Torre de Piche para ver se aprende a ser malvada.

Ela chora e é levada à força para a torre. Todas as Bruxas saem.

CENA 4
Pluft entra, perdido, chamando por Maribel, quando escuta o choro da Bruxinha.

Pluft - Quem está chorando?
Ângela - Sou eu! Aqui na torre.
Pluft - Uma bruxinha... Por que você está presa ai?
Ela explica toda a história e ele explica a sua.

Pluft - Eu vou te tirar daí, Bruxinha.
Ângela - Não! As bruxas vão voltar e me prender de novo!
Pluft - O que vamos fazer?
Ângela - Você me ajuda a dar um jeito nas bruxas e eu te ajudo a encontrar a Maribel.
Pluft - Combinado.
Ângela - Você precisa encontrar uma flauta e tocar. As bruxas ficam paralisadas com música de flauta.
Pluft – Vou procurar uma. Já volto.
(Ele sai e volta com uma flauta.)
Pluft - Pronto.
Ângela - Estou ouvindo gargalhadas! São elas! Vamos nos esconder.

Entram as bruxas voando em suas vassouras e gargalhando. Pluft começa a tocar a flauta e elas vão andando devagar, mais devagar, até virarem estátuas. Pluft solta a Bruxinha Ângela, eles pegam cada um uma vassoura e voam ao redor das bruxas paralisadas.
Entra Maribel trazendo o tesouro do Capitão Bonança. Eles comemoram, colocam as bruxas trancadas na Torre de Pixe e dão as mãos, felizes.

Adaptação – Alessandra Mourão

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Expressão corporal e Sonoplastia

Atendendo a pedidos, posto aqui a história que contei no 4º Encontro Nacional de Educadores, realizado dia 13/01/2012, no Hotel Mirador, Copacabana, Rio de Janeiro.

Primeiramente o professor divide a turma em dois grupos. O primeiro grupo ficará responsável pela sonoplastia, usando o próprio corpo para produzir os sons. O segundo, fará os movimentos corporais de acordo com a história.

O professor pode pedir, ainda, que os alunos criem as suas próprias histórias, contando-as para todos. Deve haver um revezamento, de modo que os alunos passem pelas duas etapas. Então, eis a história...


Uma criança acordou com o despertador tocando. Levantou-se e logo ouviu os pássaros cantando no jardim. Foi até o banheiro, abriu a torneira, lavou o rosto, escovou os dentes e desceu a escada correndo.

O telefone começou a tocar. Era a mamãe pedindo para cuidar do bebê. Ele parecia que estava adivinhando, pois começou a chorar. A criança pegou seu irmãozinho com carinho, mas ele não parava de chorar. Chorava, chorava, cada vez mais alto. Finalmente o choro foi diminuindo e o bebê dormiu, sendo colocado com cuidado no carrinho.

A criança, então, abriu as janelas da sala. Na sua rua, que era uma subida, passava um caminhão vagarosamente. Do outro lado da calçada ela avistou a sua amiga, mas ela olhava em outra direção. A criança assoviou e, finalmente, a amiga acenou.

De volta à sala, ela sentou-se no sofá, relaxou, porém um barulho de um trovão a assustou. Começou um temporal. Raios e trovões eram ouvidos. A criança estava nervosa, andava de um lado para o outro, a tempestade aumentava. As janelas e portas batiam, a chuva fazia um grande barulho e ela estava com medo, muito medo. Aos poucos a chuva foi passando, passando e parou de vez. Ela sentiu-se aliviada.

Seu gatinho chegou na sala e começou a miar. A criança colocou ração para ele, fez um carinho e subiu para o seu quarto. Abriu a porta que o vento havia batido, deitou-se na sua cama. Pouco a pouco os pássaros voltavam a cantar.

Ela foi relaxando, relaxando, seus olhos foram ficando pesados e ela adormeceu.


Saiba com foi o 4º Encontro Nacional de Educadores no site:
http://www.enedu2012.com/fotos.html

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

IV Encontro de Educadores

Queridos amigos, no dia 13/01/2012 estarei no IV Encontro de Educadores promovido pelo PPD (Projetos Pedagógicos Dinâmicos).

Falarei sobre o Teatro na Educação, prática essa que é pouco usada e tão mal compreendida nas escolas. Passarei um pouco da minha experiência com o jogo dramático e os jogos teatrais e, claro, vamos vivenciar muitas coisas.

Quem puder ir, com certeza vai aproveitar bastante. Afinal, temos que estar sempre nos reciclando e nos recriando.

Um ótimo 2012 para todos.

domingo, 27 de novembro de 2011

O verdadeiro sentido do Natal


A dramatização a seguir é bem simples, ótima para quem quer apresentar alguma coisa no final do ano e deixou tudo para cima da hora ou para quem trabalha com crianças da Educação Infantil, que tem um tom de voz baixo. As falas são em grupo ou espontâneas, sendo que as últimas não atrapalham o entendimento da história se forem faladas baixo. O importante é que a criança fique à vontade, gostando de participar. Trabalho também com sons variados, baixados na internet.

O verdadeiro sentido do Natal

Narrador - Na época do Natal as lojas vivem cheias, o shopping lotado. Gente andando para lá, para cá. É assim que encontramos várias pessoas na correria pelos melhores presentes.

Entram todas as crianças, se possível pelos dois lados e começam a andar rápido e a falar todas ao mesmo tempo:
- Preciso achar um presente lindo!
- O que eu vou comprar?
- As lojas estão cheias.
- Que confusão!
- Daqui a pouco as lojas fecham.

Narrador - Mas alguma coisa vai acontecer e mudar esse Natal para sempre.

Som de um apito. As crianças congelam.

Narrador - Ganhar e dar presentes é muito bom, mas o Natal não é só isso. Contudo, para as pessoas perceberem, às vezes é preciso uma ajuda extra.

Enquanto fala, o narrador coloca um envelope nas mãos de algumas crianças. (Som de apito - voltam a se mexer. As crianças que estão com o envelope, olham o seu conteúdo)

Crianças da carta - Achei, achei, uma carta do Papai Noel!

Todos - Papai Noel?
Crianças da carta - Ele quer a nossa ajuda.

Narrador - Então, pegando o trenó mágico que o Papai Noel mandou para buscá-los, (todos entram no trenó) eles vão direto para o Polo Norte. No caminho passa um helicóptero tão baixo que quase bate no trenó (som de helicóptero - crianças se abaixam).

O tempo está mudando, parece que vem uma tempestade. Começa a ventar (som de vento - crianças balançam de um lado para o outro). E chega a tempestade. (som de trovões e chuva - eles se assustam e se protegem)

Finalmente a tempestade para e o trenó chega ao Polo Norte. (Descem, olham em volta)

Lá faz muito frio (se abraçam, tremem). O resto do caminho tem que ser feito a pé. Já é quase Natal, é melhor correr. (Correm)

Depois de muito andar, estavam exaustos. (som de coração batendo - crianças ofegantes) Eles avistam um pinheiro de Natal feio, sem enfeites. Será que era para isso que o Papai Noel queria ajuda? Mas já é tarde, todos estão cansados, a viagem foi longa,vamos dormir.

Crianças - Boa noite!
Música Noite feliz. Um de cada vez ou em dupla levantam, colocam um enfeite na árvore e voltam a dormir. Quando a música termina, toca o despertador e as meninas acordam, se espreguiçam, dão bom dia.

Narrador - É hora de acordar. Acho que tem gente que tem o sono muito pesado e precisa de ajuda. (som da alvorada - meninos acordam assustados) O pinheiro está enfeitado, já é Natal, mas acho que não é isso que o Papai Noel queria. Eles têm uma ideia. (crianças cochicham em roda) Acho que descobriram!

Todos - É isso!

Narrador - Descobriram o verdadeiro sentido do Natal.

Música - Então é Natal - Simone As crianças vão para o fundo, colocam o gorro do Papai Noel e ficam uma ao lado da outra. Durante a música, uma de cada vez vai na frente, abre uma caixa de presente, tira um cartaz, volta para o seu lugar, mostrando a palavra para o público. Dependendo do número de crianças pode ser feito em dupla.

Escolhi as seguintes palavras: Amor, União, Esperança, Felicidade, Paz, Solidariedade, Fraternidade.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O chapéu mágico



O chapéu mágico faz você se transformar em qualquer coisa: um leão, uma noiva, um dragão, uma estátua de pedra, um príncipe no cavalo ou o que a sua imaginação deixar.

O professor coloca o chapéu no chão, no centro da sala e pede aos alunos que caminhem pelo ambiente do jeito que quiserem - rápido, devagar, de costas, de mãos dadas.

Ao sinal, quem estiver mais próximo do chapéu, o coloca e se transforma no que quiser. Os outros alunos observam e tentam descobrir o que é.

À medida que forem descobrindo ou quando se sentirem prontos, começam a imitar o colega ou a criar da sua maneira o que ele está fazendo. Se a pessoa que está com o chapéu imita um cavalo galopando, os outros podem fazer igual ou, se preferirem, um cavalo pastando, dormindo, etc.

Ao segundo sinal, o chapéu volta para o meio da sala e todos continuam caminhando livremente. A situação se repete até que todos tenham colocado o chapéu.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Cavalinho de caixa de sabão em pó




O Dia das Crianças está chegando e, com ele, a preocupação dos professores em relação à lembrança dos seus alunos.

Comprar pronto, confeccionar? Qual seria a melhor alternativa? Muitos professores optam pela segunda opção, pois além de ter um toque personalizado, pode ser adaptado de acordo com o projeto que está sendo trabalhado.

Quantas vezes nos surpreendemos quando presenteamos um filho, sobrinho ou afilhado e vemos que ele gostou mais da caixa do que do próprio brinquedo. Pois é, a imaginação das crianças vai longe e elas não precisam de coisas caríssimas para se divertir.

Uma ideia diferente e que chama muito a atenção, por causa do bonito visual, é o cavalo feito com caixa de sabão em pó.

Quem nunca brincou de cavalinho quando era criança? Pode ter sido com um comprado pronto ou improvisado num cabo de vassoura, essa brincadeira está na lembrança de quase todo mundo. Presente também em muitos contos de fadas aonde príncipe e princesa vão embora montados num belo cavalo, esse brinquedo mexe com o imaginário popular.
Então, vamos aprender a fazê-lo?

Material necessário:
- 1 caixa de sabão em pó vazia
- papéis coloridos (cartolina, papel camurça, etc)
- cola
- fita crepe
- tesoura
- 1 elástico de escritório
- hidrocor
- lã ou papel crepom

Coloque a caixa numa posição em que a abertura da saída do sabão fique para baixo, pois aproveitaremos para colocar o cabo aí. Recorte a caixa de acordo com o desenho 1. Você vai recortar a parte da frente e as duas laterais, o único lugar que não corta é a parte de cima e a de baixo. Prenda as laterais do corte de cima com fita crepe na própria caixa, formando a cara do cavalo.

Faça um furo na parte de cima da caixa, amarre uma das pontas do elástico e a outra ponta na parte de baixo da caixa. Ele dará o movimento da boca. Veja a segunda foto.

Encape toda a caixa com o papel que preferir, cobrindo, inclusive os nós do elástico que ficam para fora. Corte um pedaço de lã de aproximadamente 6 cm e prenda na parte de baixo da boca. Quando você puxar esse pedacinho de lã, a boca abre e depois fecha sozinha com a pressão do elástico que está por dentro.

Agora é só completar com os olhos, orelhas, rédeas e tudo mais que a sua imaginação quiser. A crina é feita com pedaços de lã ou fitinhas de papel crepom. Quanto mais cheia a crina, mais bonita ficará.

O cabo pode ser de vassoura ou então faça um rolo grosso com várias folhas de jornal. Depois é só cobri-lo com papéis ou até durex colorido.
Agora é só dar asas à imaginação!

domingo, 14 de agosto de 2011

O longo caminho do teatro na educação


O objetivo do teatro na educação não é somente a formação de público, mas ele pode sim contribuir para uma plateia crítica, que interprete os signos de um espetáculo, buscando o estabelecimento de novas relações. Mas para isso acontecer deve ser feito um trabalho antes e outro depois da ida ao teatro ou da apresentação na escola. Com a familiaridade com os códigos teatrais os alunos terão conhecimento da linguagem cênica e maior abertura para assistir e debater uma peça.

O teatro na escola visa o desenvolvimento de todas as potencialidades do educando, contribuindo para a sua formação integral e preparando-o para o mundo que o cerca.

Infelizmente ainda vemos o teatro como mera representação de peças em datas comemorativas, onde o aluno repete um texto pronto e totalmente decorado, não havendo autonomia no fazer e nem espontaneidade nos seus gestos. Essa prática visa o resultado final e não o processo em si, dando ênfase ao exibicionismo e promovendo constrangimentos nas crianças mais envergonhadas.

Em algumas instituições há a formação de grupos que, segundo os professores, são compostos de alunos que têm talento ou levam mais jeito, excluindo os demais de uma participação efetiva.

Falta ao professor brasileiro tempo, ânimo e apoio para se aprofundar, debater e pesquisar, o que acarretaria uma maior estruturação dos fundamentos teórico-metodológicos. Um dos grandes desafios seria: como motivar um profissional para estudo e atualização quando ele trabalha o dia todo com turmas de em média 45 alunos? Por outro lado é necessário fazer com que os profissionais de outras disciplinas percebam a importância do teatro para o desenvolvimento global do educando.

O teatro nas escolas brasileiras ainda tem um longo caminho a percorrer, mas não é por isso que não daremos algumas engatinhadas, caindo e levantando, mas, tentando e aprendendo junto com os alunos.

sábado, 23 de julho de 2011

Como trabalhar com teatro na Educação Infantil



Um dos principais objetivos do teatro na Educação Infantil, é que ele possa ser espontâneo. Nada de textos decorados e repetidos. O aluno é que deve criar suas falas, usando a imaginação.


O primeiro momento é livre, onde eles exploram roupas e acessórios para compor os figurinos. Essa parte dura em média 15 minutos. Conforme eles definem o que usarão, sentam-se, aguardando os colegas.

Quando a maioria está pronta ou o tempo está se esgotando, é lembrado aos demais para concluírem essa etapa. O que sobrou é guardado e, de acordo com o combinado, não se pode pegar mais nada. Isso evita troca de roupas durante o jogo, interrompendo o grupo.

Cada criança conta para os colegas e para a professora “quem é”: nome do seu personagem, o que gosta de fazer e tudo o mais que achar importante. Observa-se que as crianças menores criam os personagens enquanto as maiores criam toda uma situação envolvendo o personagem e as relações que mantêm com os outros, combinadas anteriormente, como a menina de cinco anos que ao responder quem era, disse: “Eu sou a borboletinha que fica atrás da Branca de Neve, da fada, de todas as meninas. Eu cuido da Branca de Neve.”

Após todos se pronunciarem, conto uma história em que aparecem os personagens citados, em diferentes situações, enquanto as crianças dramatizam. Tudo pode ser tema para a história: desenhos feitos pelas crianças, lendas brasileiras, situações vividas na escola ou relatadas pelo grupo.

Em vários momentos elas próprias dão sugestões sobre o que querem fazer. As falas surgem espontaneamente, sendo, em alguns momentos, estimuladas com frases como: “Conte para eles o que aconteceu”; “O que está escrito no mapa?”; “Convide o seu amigo para ir ao castelo com você”; “Diga a todos o que tem para o jantar”.

Ninguém é obrigado a fazer ou falar nada que não queira, podendo a criança participar, sem necessidade de diálogo. O professor deve aceitar as sugestões dadas pelas crianças.

Ao perceber que a história caminha pela iniciativa dos próprios alunos, o professor pode parar de contar e deixar que as coisas se arranjem por si só.

Como não existe público, a formação dos grupos varia, dependendo no número de alunos e dos interesses deles, podendo todos se envolverem na resolução de um problema ou se dividirem naturalmente, cada um com seu interesse específico. Nessa idade nem todos aceitam se submeter à ideia dos colegas, querendo que as suas prevaleçam. Numa situação assim o professor pode deixá-los se dividirem naturalmente e, mais tarde, sugerir momentos em que todos possam estar novamente juntos, criando situações de integração dos sub-grupos.

É comum que as crianças nessa faixa etária comecem como um personagem e de repente se transformem em outro, quando isso ocorre, eles costumam avisar. Outro ponto notado é que eles combinam entre si o que vai acontecer ou as mudanças ocorridas. Como foi observado um menino de cinco anos avisando: “Eu sou o avô de vocês.” Enquanto seu colega de seis anos completava: “Avô, venha cá.”

A história pode seguir caminhos diferentes e é preciso flexibilidade e criatividade por parte do professor, já que o final vai sendo construído à medida em que ela se desenrola.

A aula deve finalizar de forma calma, de modo que todos voltem a se organizar e a se concentrar para a avaliação. Caso o grupo queira envolver o professor na brincadeira, vale a pena participar, tomando cuidado para não cortar a espontaneidade e nem se apropriar de uma brincadeira que é deles.


Retirado da Monografia O jogo dramático na Educação Infantil como base para o trabalho com teatro na escola, de Alessandra Mourão.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Pedido de uma criança aos seus pais



Tradução Quely de Barros

1) Não me estrague, sei bem que não devo ter tudo quanto peço, só estou experimentando você.

2) Não vacile em ser firme comigo. Prefiro assim. Isso faz com que eu me sinta mais seguro.

3) Não me corrija na presença de estranhos, se quer que isto seja eficaz. Aprenderei muito mais se me falar em particular.

4) Não me faça sentir que meus erros são pecados. Isso confundirá meu senso de valores.

5) Não me proteja das consequências, às vezes necessito aprender pelo caminho mais áspero.

6) Não leve muito a sério minhas pequenas dores, necessito delas para obter a atenção que desejo.

7) Não me faça promessas irrefletidas. Lembre-se que isto irá desapontar profundamente a mim.

8) Não se esqueça que não posso me expressar tão bem quanto desejo. É esta a razão porque não sou sempre preciso.

9) Não seja inconstante. Isto me confunde e me faz perder a fé.

10) Não me descarte quando faço perguntas. Se assim o fizer descobrirá que parei de fazê-las e estarei procurando as respostas em outro lugar.

11) Não me diga que meus temores são bobos. Para mim são profundamente reais e você muito poderá fazer para tranqüilizar-me tentando compreendê-los.

12) Não insinue que é perfeito ou infalível. Ficarei extremamente chocado quando descobrir que não o é.

13) Não pense que seria rebaixar ou diminuir sua dignidade pedir-me desculpas. Desculpas sinceras tornam-me surpreendente afetuoso.

14) Não esqueça que gosto de experimentar as coisas por mim. Por favor tolere-me.


Sei que talvez seja difícil para você atender a todos os meus pedidos, mas por favor faça o possível. Porque assim você estará me ajudando a crescer.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Circo Mágico



O Circo Mágico

*Autoria de Alessandra Mourão

Personagens:
Palhaço, Mariazinha, Leão, Elefante, Pulga, Macaco

O Palhaço Pipoca está sentado no chão, triste, chorando, quando entra a Mariazinha.
Mariazinha – Oi, qual é o seu nome?
Palhaço – (Levantando-se) Pipoca e o seu?
Mariazinha – Mariazinha. Por que você está chorando?
Palhaço – O circo está muito chato sem animais. Eu gostava como era antigamente, o leão, o macaco, o tigre, o elefante, todos alegrando a criançada, mas agora é proibido.
Mariazinha – Eu conheço um circo que só tem animais e são eles quem mandam.
Palhaço – Você está de brincadeira. Todos os circos têm as pessoas que trabalham lá, o dono do circo, o pessoal da limpeza, o vendedor de ingressos.
Mariazinha – Mas esse é diferente, é um circo mágico.
Palhaço – Circo mágico? Isso não existe.
Mariazinha – Claro que existe. Os animais é que escolhem o que querem fazer. Eles são os donos. E tem mais uma coisa.
Palhaço – O que?
Mariazinha – (Olha para os lados para ter certeza que ninguém os escuta) Os animais falam.
Palhaço – Há há há. Isso é uma piada, não é menina?
Mariazinha – É verdade.
Palhaço – No seu sonho, não é? E onde fica esse circo mágico?
Mariazinha – Aqui mesmo. (Sai correndo)
Palhaço – Espere! Eu hein! Trabalhei toda a minha vida no circo e nunca ouvi falar de circo mágico. É cada uma que me acontece. (Se assusta com o leão)
Música
Leão – Ei, palhacinho! Venha cá, vamos conversar.
Palhaço – Não! Tenho medo.
Leão – Ora, ora, não faço mal a ninguém. Sou adestrado.
Palhaço – Adestrado?
Leão – Faço truques, sabe?
Palhaço – Que legal! Me ensina?
Leão – Claro! Amanhã estou de folga, apareça aqui no circo.
Palhaço – Tá bom, vou vir mesmo.
Leão – Vem sim, vou te ensinar uns truques maneiros. Agora tenho que treinar. Até amanhã.
Palhaço – Gente, vou aprender alguns truques com o leão. Que maravilha! Mas o que é aquilo que vem ali? Um elefante!
Música
Palhaço – Oi, seu elefante
Elefante – Oi. Qual é o seu nome?
Palhaço – Palhaço Pipoca.
Elefante – Você veio de outro circo?
Palhaço – Sim, de um circo longe daqui, mas eu estou muito chateado.
Elefante – Chateado, porque? Palhaços deviam estar sempre alegres.
Palhaço – É que agora o circo não pode ter mais animais e eu estou achando tudo isso muito chato. Sinto falta dos bichos.
Elefante – Pois o nosso circo é só com animais, não tem nenhum humano.
Palhaço – Eu devo estar sonhando, ainda não estou acreditando.
Elefante – Pois é verdade. Tudo é possível quando a gente quer muito.
Palhaço – Estou achando demais!
Elefante – Hum, está me dando uma fome. Acho que vou fazer uma boquinha.
Palhaço – Tchau, elefante. Adorei te conhecer. Nossa, fiquei mais animado, tem tanta coisa diferente nesse circo. Estou cansado, vou descansar um pouco aqui. (Deita e dorme.)
Música
(Enquanto ele dorme, entra a pulga que fica mexendo no palhaço. Ele se coça enquanto dorme.)

Palhaço – (Acordando) Que coceira. Até parece que estou com... (avista a pulga) pulga!!!
Pulga – Calma, deixa eu te fazer coçar.
Palhaço – Sai pra lá! Eu tomo banho.
Pulga – Só um pouquinho, vai. Uma coceirinha na perna.
Palhaço – Que circo mais sujo. Está cheio de pulgas. Ninguém limpa isso aqui não?
Pulga – Há, há, há, há! Eu trabalho aqui, seu bobinho.
Palhaço – Uma pulga trabalhando no circo? Ah, conta outra!
Pulga – Você nunca ouviu falar de circo de pulgas?
Palhaço – Não!
Pulga – Pois as pulgas são pequeninas, mas também fazem o seu show.
Palhaço – É, tamanho nunca foi documento.
Pulga – Olha, olha!
Palhaço – O que?
Pulga – Olha, olha!
Palhaço – O que?
Pulga - Aquilo passando ali não é um cachorro? Tenho que ir. (Sai correndo)
Palhaço – Espere! Espere! Me conta mais sobre esse circo de pulgas. Ah, ela já foi, que pena.

(Falando para a plateia) Gente, a Mariazinha tinha razão, esse circo é bem legal. (Entra o macaco, o cutuca e se esconde. Ele olha e não vê nada, continua falando sobre as belezas do circo e o macaco repete o gesto, até que o palhaço o vê)

Palhaço – Ah, eu já te vi macaquinho.
Música
Palhaço – Sabe, macaco, eu estava cansado do circo, achava chato. Agora que conheci o circo mágico, achei fascinante.
Macaco – O circo é o espetáculo mais bonito do planeta. E vem alegrando crianças há muito tempo.
Palhaço – É verdade.
Macaco – E como não pode ter animais no circo, nós criamos o nosso. O circo mágico.
Palhaço – Bem, eu conheci o leão, o elefante, a pulga e agora, você macaquinho. Será que eu posso ficar junto com vocês?
Macaco – Acho que não tem problema, você parece ser bem legal e respeita os animais. Então vou chamar os meus amigos, porque agora o artista é VOCÊ!

Entram todos os personagens e toca a música final - O circo da alegria href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi5dis41HItDWlU1OEJwkIJhc1-GMbnIM8I7dz1fiqSBlThZlqtwh1f1ycBmYwSDA2yFsQwnt-cIJRKEraAAs2nPJ0BRRPKvW_hMFnf0juMJmGOQBcp_V4W6BKhQOzpEqgzMAf3B0I3YSc/s1600/2010+%252837%2529.JPG">
E viva o circo!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Aula de Teatro nas Escolas - Luxo ou necessidade?

Aula de Teatro nas Escolas - Luxo ou necessidade?



Para os educadores e especialistas é de suma importância a discussão acerca dos fundamentos teórico-metodológicos que sustentam a Pedagogia do Teatro e de que maneira eles se cristalizaram na história da educação brasileira.
Por outro lado, se com tantos avanços em diferentes áreas do conhecimento, a educação brasileira ainda deixa a desejar, logo não seria o ensino de teatro um supérfluo dentro das necessidades prioritárias?

A Educação Artística, na qual está inserida as Artes Cênicas, é uma disciplina reconhecida legalmente, com objetivos e propostas particulares e não tem como fim atender aos projetos de outras disciplinas ou se resumir a apresentações em datas comemorativas e no final de ano.

Temos no Brasil pouquíssimos professores de teatro, tanto nas escolas públicas quanto nas particulares e esse número chega à zero em certas regiões do país. Vale ressaltar que encontramos uma quantidade irrisória de material sobre Teatro na Educação, principalmente se compararmos com outras disciplinas. É sabido que esse material editorial aumentou de uns anos para cá, mas mesmo assim ainda deixa a desejar. Quando se fala da Educação Infantil, então, diminui mais ainda, sendo a maior parte do material disponível para a faixa etária acima de 7 anos. Um dos poucos autores que desenvolve um discurso sobre o teatro para crianças menores é o inglês Peter Slade, ainda pouco conhecido pelos educadores brasileiros e oriundo de uma realidade distinta da nossa.

Uma maneira de resolver o problema da falta de profissionais capacitados seria trabalhar com os professores em geral e usar o teatro como ferramenta pedagógica dentro de algumas disciplinas. Logo, se um professor demonstra interesse em trazer o jogo dramático ou jogo teatral para a sala de aula, mesmo não tendo formação adequada, essa ideia é de muita valia e merece total apoio. É melhor ter o teatro desenvolvido por amadores do que nunca o ter. Com isso pode-se despertar o interesse não só do educando como do educador, fazendo-os procurar, por si mesmos, cursos, aulas, livros, demonstrando assim a eficácia de um caminho contrário ao desejável mas que pode surtir efeitos positivos.

No VI Congresso Internacional de Educação Infantil, organizado pela Asbrei – Associação Brasileira de Educação Infantil, que aconteceu em julho de 2010 no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de ministrar a oficina Teatro na Educação Infantil. Enquanto nas outras oficinas, que aconteciam simultaneamente, a média era de 28 a 30 participantes, apenas 18 educadores demonstraram interesse em conhecer mais um pouco sobre o teatro na escola.

De acordo com uma discussão feita na comunidade do Orkut Teatro na Educação sobre o pouco caso do teatro nas escolas, pude colher algumas opiniões de profissionais de todo o Brasil. Segundo eles, o teatro é visto tão somente como entretenimento. Outros tantos professores têm dúvidas e medo de arriscar o que aprenderam na faculdade. Eles citam, também, que falta incentivo de pais, professores de outras disciplinas e até da direção da escola, devido a isso muitos alunos ficam desmotivados. Em outra situação a aula é encarada como recreio, como cita a professora Daniele Jácome da rede estadual de São Paulo. Observamos nesses relatos uma falta de estruturação dos fundamentos teórico-metodológicos.

Como muito bem citado por Ingrid Koudela, as bases teóricas são de suma importância. Contudo, falta ao professor brasileiro tempo, dinheiro, ânimo e apoio para se aprofundar, debater, pesquisar. Um dos maiores desafios seria: como motivar um profissional para o estudo e a atualização quando ele trabalha o dia todo com turmas de 45 alunos?
As poucas escolas que tem o teatro no currículo contam apenas com um professor dessa disciplina, logo teria ele que buscar, em outros lugares, um grupo de estudo ou discussões. Por outro lado seria necessário fazer com que os profissionais de outras áreas vissem a importância do teatro para o desenvolvimento global do educando.

Se o curso de formação de professores e as faculdades de Pedagogia tentam colocar a discussão teórica como alicerce para uma prática, fica devendo, e muito, no trabalho de campo. As escolas públicas, muitas vezes carentes de tudo, não oferecem espaço ou materiais apropriados para um aprofundamento das práticas teatrais, sem falar no número de alunos por turma, o que atrapalha o trabalho do professor; já as escolas particulares, não demonstram interesse em ter essa disciplina como parte do currículo e a colocam como atividade extra, após o horário das aulas, cobrando um valor à parte.

O jogo dialético de raciocínio, que objetiva a peça teatral brechtiana, pode ser conseguido, também, através de uma conscientização social, já feita por professores de diferentes disciplinas. Para Brecht, ensaio significa experimentação, ou seja, testar várias possibilidades simultaneamente e isso requer tempo. A partir do momento em que se teoriza para o professor, que depois não terá oportunidade de ler mais, de experimentar, ele também ficará com medo de colocar em prática o que ainda não domina.
Um outro objetivo é a construção do conhecimento pelo próprio aluno, onde ele examinará e questionará o seu fazer. A avaliação é reflexiva e acontece durante o processo, mas para isso precisa-se de total estudo e domínio, para uma boa orientação aos alunos. Como mediar uma classe se o professor não se sente seguro para tal? Devido a isso ainda observamos alguns educadores inseguros, sendo os donos absolutos do conhecimento e não admitindo nenhum tipo de pensar diferente do que é colocado. Sem falar que grupos com realidades e vivências distintas pedem modos de trabalhar distintos, coisa difícil para quem cristalizou formas de atuar perante a turma e que tem medo do desconhecido, como, por exemplo, um simples debate em sala. Também é difícil ouvir a avaliação dos alunos, já que seu trabalho estará em jogo. Esses profissionais querem ensinar a todo custo, como se os alunos fossem meros depósitos, coisa essa que está do lado oposto ao que prega Koudela.

É de muita valia buscar bases teóricas e metodológicas e debater a sua funcionalidade dentro da sala de aula, mas é necessário, também, toda uma reestruturação do sistema, o qual cobra o tempo todo provas e notas e onde o resultado é mais importante do que o processo, além de desvalorizar as aulas de Artes Cênicas, legando-a uma menor importância.

Infelizmente a teorização das bases pedagógicas do ensino de teatro, acaba sendo um luxo que poucos educadores tem oportunidade de ter. É preciso modificar primeiro a conscientização do educador, do educando e do sistema para depois desenvolver, com mais propriedade, uma verdadeira aula de teatro.

Resenha do texto Abordagens Metodológicas do Teatro na Educação de Ingrid Dormien Koudela e Arão Paranaguá de Santana

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Os dez mandamentos do Ensino

Esse texto é fantástico, se a maioria dos professores seguissem essas ideias, teríamos crianças mais felizes, interessadas e resultados melhores nas escolas. Se eu não me engano, ele é do livro "A Paixão de conhecer o mundo" da Madalena Freire. Procurei na internet mas não achei. Se alguém souber, poste aqui se essa informação procede, pois o que eu tenho, ainda datilografado (meio velhinho né?), está sem autoria.

Os dez mandamentos do ensino

1- Não ensine: provoque a atividade da criança (algo parecido com a brincadeira tradicional de adivinhação).


2- Leve as crianças a discutirem entre si a situação proposta e respeite as suas conclusões, mesmo que erradas (a solução dada pelas crianças corresponde a seu nível mental).


3- Não trabalhe na base da linguagem (sendo um produto social assimilado por imitação, a linguagem nada diz sobre o verdadeiro nível de desenvolvimento da criança).


4- Não prestigie a memorização: o melhor resultado é o que demonstrar capacidade de inventar e descobrir (mesmo que do ponto de vista do professor, a solução seja errada).


5- Comporte-se como técnico de um time de futebol: estimule, sugira, faça críticas, mas não jogue (o jogo é das crianças).


6- Use como material o que existir no mundo da criança (seja ela de uma favela ou de um bairro grã-fino).


7- Sempre que a criança superar um patamar, complexifique a situação (sem isto, a criança se especializa na solução obtida).


8- Na alfabetização utilize as marcas e logotipos que estão espalhados pela cidade e que são utilizados no dia-a-dia da família (não se prenda às cartilhas).


9- Organize as crianças em grupos, deixando que elas criem as regras de convivência (educação moral e cívica é democracia).


10- Leve as crianças a compreenderem o que fizeram, quer a atividade seja motora, verbal ou mental (incluir atritos que surgem entre as crianças).

domingo, 25 de julho de 2010

A Escola da Ponte




Ainda empolgadíssima com o VI Congresso Internacional de Educação Infantil, realizado pela ASBREI, nos dia 21, 22 e 23 de julho de 2010, aqui no Rio de Janeiro e, principalmente com a palestra do Professor José Pacheco, trago um texto de Rubem Alves sobre a Escola da Ponte, em Portugal.



"Vou contar um caso de amor. Amor à primeira vista. Eu me apaixonei pela escola da Ponte. Bastou vê-la para que um passado reverberasse dentro de mim não tenho memórias dolorosas do grupo escolar. As coisas a serem aprendidas eram fáceis e eu as aprendia sem esforço. Mas minha efervescência intelectual - pois as crianças também têm efervescências intelectuais - estava em outro lugar: no mundo que começava quando eu saía da escola.


Eu me levantava às 5h e me punha a andar pela casa fazendo barulho. Queria que os adultos dorminhocos despertassem do seu sono para o mundo maravilhoso que aparecia com a luz do dia. Minha curiosidade me levou a desmontar o relógio de pulso de minha mãe, o único que ela tinha. Queria saber como ele funcionava, aquela engrenagem fascinante. Infelizmente, não consegui montá-lo de novo.


No grupo escolar, nos ensinavam o que o programa mandava: o nome de serras, serra da Mata da Corda, do Espinhaço, da Bocaina; o nome de afluentes de rios distantes, dos quais a única coisa que aprendíamos eram... os nomes. O que me foi útil no exame de admissão, porque me perguntaram o nome da segunda maior ilha fluvial do mundo. Tupinambarana. Eu sabia o nome. Mas ainda hoje, nada sei sobre a ilha.


Era tempo da segunda guerra mundial. As batalhas entravam em nossa casa pelo rádio. "E Stalingrado continua a resistir." "Aviões aliados martelaram as posições nazistas no Vale do pó." meu pai afixou um mapa da Europa na parede e nele íamos seguindo os movimentos das tropas. A imaginação corria rapidamente e eu me sentia como um soldado na frente de batalha. O mapa, os países, o nome das cidades, dos rios, das montanhas - tudo estava vivo para mim.


Conto essas coisas da minha vida de menino para dizer que as crianças são curiosas naturalmente e têm o desejo de aprender. O seu interesse natural desaparece quando, nas escolas, a sua curiosidade é sufocada pelos programas impostos pela burocracia governamental. Pela minha vida tenho estado à procura da escola que daria asas à curiosidade do menino que fui. Pois, de repente, sem que eu esperasse, eu me encontrei com a escola dos meus sonhos. E me apaixonei.


Novas Formas de ver. Tudo começou em 2000, via internet. Um desconhecido de Portugal, Ademar Ferreira dos santos. Uma brasileira lhe havia dado um livrinho meu, Estórias de Quem Gosta de Ensinar. Ele gostou. Sem nos conhecermos pessoalmente, nos descobrimos amigos. Ele me convidou para ir a Portugal e falar aos professores da universidade de Braga e adolescentes de uma escola secundária.


Fui e fiz. Foi bom. Aí, numa manha, ele me disse: "vou levar-te a conhecer uma escola diferente."Diferente como?", perguntei. "Não é possível dizer-te. tu verás." chegamos à escola. Na sua frente havia um pátio arborizado. Lá estava o diretor, professor José Pacheco. Mais tarde, aprendi que ele se recusa a ser chamado de diretor, por razões que explicarei mais tarde.


Minha expectativa era que o diretor, por um mínimo dever de cortesia, haveria de levar-me a conhecer a escola. Homem de poucas palavras, trocamos meia dúzia de banalidades. Vinha passando à nossa frente uma menina de uns 9 anos. Ele a chamou e disse: "Tu podes mostrar e explicar a nossa escola ao nosso visitante?" "Pois, pois", respondeu a menina, sem mostrar nenhuma surpresa. Ato contínuo, ele me abandonou e fiquei eu à mercê da menina.


Os primeiros sustos. Eu nunca tinha tido experiência que um diretor entregasse a uma aluna, menina de 9 anos, a tarefa de mostrar e explicar a sua escola a um educador estrangeiro.

A menina não se fez de rogada. Encaminhou-se resolutamente na direção da porta da escola e eu, obedientemente, a segui. Chegando à porta, ela parou, voltou-se para mim e disse em voz resoluta e confiante: "para entender a nossa escola, o senhor terá de se esquecer de tudo o que o senhor sabe sobre escolas. Não temos turmas, não temos alunos separados por classes, nossos professores não dão aulas com giz e lousa, não temos campainhas separando o tempo, não temos provas e notas."
Foi o segundo susto. As palavras da menina produziram um vazio na minha cabeça. Porque as escolas que conheço, mesmo as mais experimentais e avançadas, têm professores dando aulas, têm turmas, têm salas de aula que separam as crianças, têm provas e testes, têm notas e boletins para o controle dos pais.
Professores aprendizes. Perguntei: "E como é que vocês aprendem ?” “Ela me respondeu: “Formamos um pequeno grupo de seis pessoas em torno de um tema de interesse comum. Convidamos um professor para ser nosso assessor. Ele nos ajuda com informações bibliográficas e de internet. Estabelecemos, de comum acordo, um programa de trabalho de duas semanas. Durante esse tempo, lemos e pesquisamos. Ao cabo de duas semanas, nos reunimos para avaliar o que aprendemos e o que deixamos de aprender.”


"Percebi logo que naquela escola não podia haver livros-texto. Livros-texto são onde se encontram os saberes que, por escolha e determinação de uma instância burocrática superior, devem ser aprendidos pelos alunos. O conjunto desses saberes se denomina "programa". Mas acontece que a curiosidade não segue os caminhos determinados pela burocracia.

Sem livros-texto, as crianças têm de aprender a procurar os saberes necessários à compreensão do "tema de interesse comum". E os professores deixam de ser aqueles que sabem os saberes prescritos pelos programas. Eles se encontram permanentemente em suspenso ante o inesperado dos interesses das crianças. Os professores não são aqueles que sabem os saberes. São aqueles que sabem encontrar caminhos para os saberes. de qualquer forma, os saberes já se encontram em livros, bibliotecas, enciclopédias, internet. Acresce-se a isso o fato de que, hoje, os saberes se tornam rapidamente obsoletos.

Se os alunos tiverem os mapas e souberem encontrar o caminho, eles terão sempre condições de descobrir o que sua curiosidade pede. E os professores, por não saberem de antemão o que as crianças querem saber, têm de se tornar aprendizes junto às crianças. O tal "programa de trabalho de duas semanas", de que falou a menina, era para os professores também. Eles ensinam o aprender aprendendo junto. O que é muito mais divertido do que ficar, todos os anos, repetindo os mesmos saberes imobilizados pelos programas. Ficar a repetir o que se sabe, ano após ano, é, sem dúvida, uma prática emburrecedora.

Dentro da escola. Andamos um pouco e a menina abriu a porta da escola. Era uma grande sala, com muitas mesinhas, crianças pequenas, crianças grandes, algumas com síndrome de Down, todas juntas no mesmo espaço. Cada uma fazendo a sua coisa. Estantes com livros. Vários computadores. Algumas crianças lendo ou escrevendo. Outras consultando livros e a internet. Algumas professoras assentadas às mesinhas junto das crianças. Ninguém falava alto. Só sussurros. E ouvia-se, baixinho, música clássica.

Numa parede, em letras grandes, estavam várias frases relativas ao descobrimento do Brasil. Era o ano em que se comemoravam os cinco séculos da descoberta. "Que são essas frases?", perguntei. "Os miúdos [crianças] estão a aprender a ler. aqui não aprendemos nem letras, nem sílabas. Só aprendemos totalidades. Mas temos de aprender a ordem alfabética para consultar o dicionário." Outro susto: aprender a consultar o dicionário tão cedo?

Mistérios do dicionário. Ao nosso lado havia uma delas consultava um dicionário. Ajoelhei-me ao seu lado, para que nossos olhos estivessem no mesmo nível, e perguntei: "Tu estás a consultar o dicionário?" "Sim", ela me respondeu. "Procuras uma palavra que não conheces?" "Não, conheço a palavra." Eu não entendi e perguntei de novo: "Mas se conheces a palavra por que a procuras no dicionário?" Aí ela me deu uma resposta que me produziu outro susto. "É que estou a produzir um texto para os miúdos e usei uma palavra que, creio, eles não conhecem. Estou, assim, a preparar um pequeno dicionário que colocarei ao pé da página do meu texto para que entendam o que escrevi, posto que ainda não podem consultar o dicionário por não haverem ainda aprendido a ordem alfabética."

Fiquei assombrado. Aquela menina tinha clara consciência dos limites dos conhecimentos dos "miúdos". ela escrevia pensando neles. Naquela idade, já era uma educadora.

Os quadros de ajuda. Para que aquela menina estivesse escrevendo um texto para as crianças era preciso que não houvesse paredes separando-a dos "miúdos", que eles ocupassem o mesmo espaço e existisse entre eles relações de comunicação, confiança e responsabilidade. O texto que ela escrevia não fora um "dever" que a professora lhe passara. Ela o escrevia a pedido dos alunos mais novos.

Essa rede livre de comunicação, responsabilidade e ajuda estava silenciosamente exibida em dois quadros afixados na parede. Num deles estava escrito preciso que me ajudem em, no outro, posso ajudar em. Qualquer aluno que esteja com um problema, antes de procurar a professora, escreve o seu pedido no primeiro quadro: "Preciso que me ajudem em regra de três", e assina o nome, Fátima, por exemplo. Aí, o Sérgio, passando pelo quadro, vê a mensagem da Fátima e pensa: "A Fátima não sabe regra de três. Eu sei. Vou ajudá-la." E isso acontece naturalmente, é parte do cotidiano da escola. Não é preciso pedir licença à professora e nem há hora certa para se fazer isso.

O segundo quadro é o contrário: quando um aluno se sente competente em um saber, ele o anuncia aos colegas e se coloca à disposição. A capacidade de ensinar um saber a alguém vale por uma avaliação. E é o aluno quem a faz. É ele que se sente competente. Assim vão eles praticando as virtudes de ensinar, de aprender e de se ajudarem uns aos outros.

O grande tribunal. Eu me encontrava num estado de acontecendo? Ninguém falando alto, nenhuma professora pedindo silêncio, todos trabalhando, a música clássica. Aquilo não podia ser toda a verdade. Deveria haver algo mais. Perguntei à menina: "Mas vocês não têm alunos agressivos, indisciplinados, que gritam e perturbam a ordem?" "Temos. Mas para isso temos o tribunal de alunos. Quando um menino ou uma menina se comporta de maneira a perturbar a ordem nos termos que nós mesmos estabelecemos, o tribunal entra em ação e providências disciplinares são tomadas."
"Que coisa maravilhosa", eu pensei. Uma escola onde os professores não são responsáveis pela disciplina. E nem o diretor é a instância punitiva última, para onde são enviados os desordeiros. É a comunidade das crianças que cuida disso. Professores e diretor podem, assim, se dedicar aos desafios prazerosos de aprender junto com os alunos.

O último julgamento. Voltei à Escola da Ponte em 2001. Perguntei sobre o tribunal. O professor José Pacheco contou-me que o tribunal não existia mais. Fora abolido pela assembléia. Percebeu-se que ele era uma instância de punição e não de recuperação. E passou a relatar-me o incidente que produzira a sua dissolução.

Um aluno violento fora levado ao tribunal para responder por uma agressão. A assembléia da escola nomeou, como de praxe, um advogado de acusação. O réu escolheu um colega para defendê-lo. A assembléia se reuniu para o julgamento.
"A acusação foi devastadora", disse-me o professor José Pacheco. "Reuniu as provas e estabeleceu de forma cabal a culpa do réu. Eu pensei: ele está perdido, não há saída. entrou em ação o advogado de defesa. Ele não negou o que fora apresentado pela acusação, nem apresentou fatos que minimizassem a culpa do réu, mas lembrou aos membros do tribunal que todos eles eram Cristãos, freqüentavam a missa e o catecismo. E que, na igreja, se ensinava que o amor nos leva a ajudar aqueles que estão em dificuldades. Concluiu: `Pois esse colega tem estado em dificuldades há muito tempo e todos sabíamos disso. E agora estamos prontos a puni-lo. antes que o tribunal dê a sentença, e em nome da nossa coerência, quero que respondamos o que fizemos para ajudá-lo.'"

Esse foi o fim do tribunal. No seu lugar estabeleceu-se uma comissão de ajuda. Hoje, na escola da ponte, quando algum aluno começa a apresentar problemas de comportamento, essa comissão se adianta e nomeia colegas para ajudá-lo, com a missão de estar sempre por perto do dito aluno. E, quando se percebe que ele vai fazer algo inadequado, os colegas entram em ação para tentar dissuadi-lo.
O direito à alegria. A menina continuou a me guiar. Chegamos a uma mesa onde estava trabalhando uma aluna com síndrome de Down. Vi garota e pensei sobre sua convivência mansa com os seus colegas. Senti que sua presença ali era algo normal e feliz na rede de relação de solidariedade e de aprendizado que constitui a escola. Aquela menina era parte dessa rede. Com algumas peculiaridades e limitações, é claro. Mas, como todos os outros, ela se dedicava a aprender.

Se me perguntarem se ela conseguia seguir o programa, eu responderia dizendo que não há um programa a ser seguido numa ordem certa e num mesmo ritmo. Cada criança é única, com seus próprios sonhos, ritmos e interesses. A escola não pode destruir essa criança para amoldá-la a uma "forma".

O objetivo da escola é criar um espaço em que cada criança possa pensar os seus sonhos e realizar aquilo que lhe é possível, no ritmo que lhe é possível. Pensei que, nas escolas da minha memória, é comum que a preocupação dominante dos professores seja dar o programa. É isso que a administração pede deles. Não é incomum que professores, em conversas, falem em que lugar da "corrida" dos programas eles se encontram. É compreensível. Como partes da máquina burocrática, eles perderam a liberdade e se esqueceram dos sonhos antigos.

A educação não tem como objetivo preparar os alunos para ingressar no mercado de trabalho. O objetivo é criar as condições possíveis para a experiência da alegria. Porque é para isso que vivemos. A escola deve ser um espaço em que isso acontece. Parte das potencialidades daquela menininha tem a ver com saber viver no mundo dos ditos "normais". E parte das potencialidades das crianças ditas "normais" tem a ver com saber conviver com crianças diferentes - e ajudá-las. Isso também é alegria. Esse aprendizado de solidariedade é mais importante do que qualquer conteúdo de programa.

Cada aluno é único. Pensei: o que são programas? Programas são uma organização lógica de saberes dispostos numa ordem linear e que devem ser aprendidos numa velocidade igual, como se todos estivessem numa linha de montagem de uma fábrica.
Sobre que pressupostos se constroem os programas? Bem, o primeiro costuma ser mais ou menos assim: "A aprendizagem se dá numa relação entre o saber, abstratamente definido, e a inteligência da criança. A mediação entre saberes e inteligência se dá pela didática. Se a aprendizagem não acontece, o problema se encontra ou na inteligência deficiente da criança ou numa didática inadequada."

Um segundo pressuposto prega que "todas as crianças são iguais". É só isso o que justifica que os mesmos saberes sejam dados a todas as crianças. mas isso é patentemente falso. os sonhos das crianças das praias de alagoas, das montanhas de minas gerais, da Amazônia, das favelas, dos condomínios ricos não são os mesmos. então, qual é o sentido instrumental dos saberes abstratos igualmente prescritos a todas as crianças pelos programas? Não admira que sejam logo esquecidos. Só realmente aprendemos aquilo que usamos.

"Todas as crianças têm o mesmo ritmo. Por isso as crianças têm de aprender no ritmo em que as aulas são dadas." Ah, o ritmo das aulas. Toca a campainha, é hora de pensar português. Toca a campainha, é hora de parar de pensar português e começar a pensar matemática. Toca a campainha, é hora de parar de pensar matemática e começar a pensar geografia. E assim por diante. O ritmo e a fragmentação das aulas estão em completo desacordo com tudo o que sabemos sobre o processo de pensamento. Não é possível dar ordens ao pensamento para que ele pare de pensar numa coisa numa certa hora e comece a pensar em outra.

Mas há ainda um quarto pressuposto: "A avaliação da aprendizagem se faz por meio de provas e testes e os seus resultados são expressos em números." Confesso ainda não ter compreendido a função pedagógica desse procedimento. Sobre isso há muito a ser escrito.

Grandes horizontes. Na Escola da Ponte não há programas. Isso não quer dizer que a aprendizagem aconteça ao sabor dos desejos das crianças. Imagine um homem do campo, que só conheça as comidas mais simples: polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne. Imagine que ele venha à cidade e seja levado por um amigo a um restaurante. "Que é que o senhor deseja?", lhe perguntaria o garçom. Ele certamente responderia falando de polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne, pois esse é o seu repertório de pratos. Aí, o amigo lhe diria: "Quero sugerir que você experimente uns pratos diferentes."

Assim acontece na relação entre professores e alunos. Os professores sabem mais. É por isso que são professores. E uma de suas tarefas é "seduzir" as crianças para coisas que elas ainda não experimentaram. Eles lhes apontam coisas que nunca viram e as introduzem num mundo desconhecido de arte, literatura, música, natureza, lugares, história, costumes, ciências, matemática. "A primeira tarefa da educação é ensinar a ver", dizia o filósofo Nietzsche. Não é obrigatório que elas gostem do que vêem. Mas é importante que seus horizontes se alarguem.

O direito de não ler. O dia na Escola da Ponte se inicia de uma forma inusitada. Cada criança se assenta onde quer e escreve numa folha de caderno o seu plano de trabalho para aquele dia. Esse plano de trabalho está ligado ao seu projeto de investigação. Ao final do dia, comparando o realizado com o planejado, ela poderá avaliar o quanto caminhou. Eu imagino que deveria ser mais ou menos assim que o trabalho acontecia nas oficinas artesanais e de arte do renascimento: os aprendizes trabalhavam num projeto artesanal, ou de escultura, pintura, e, vez por outra, o mestre aparecia para avaliar, corrigir, sugerir.

Andando na Escola da Ponte, encontro um cartaz cujo título era: Direitos e Deveres das crianças em relação aos livros. O primeiro direito me deu um susto tão grande que nem li os outros. Foi susto por ser inesperado. Mas foi um susto bom. Até ri. Dizia assim: "Toda criança tem o direito de não ler o livro de que não gosta." Esse direito sempre me pareceu óbvio. Mas eu nunca o havia visto assim escrito de forma clara, numa escola, para que os alunos o lessem. As escolas da minha memória jamais fariam isso. Porque é parte do seu dever burocrático fazer com que as crianças leiam os livros de que não gostam.

Há professores que ensinam literatura para desenvolver uma postura crítica nos seus alunos. Mas esse não é o objetivo da literatura. Lê-se pelo prazer de ler. Por isso, refugo quando pessoas falam sobre a importância de desenvolver o hábito de leitura. Isso é o mesmo que dizer que é preciso desenvolver nos maridos o hábito de beijar a mulher. Hábitos são comportamentos automatizados que nada têm a ver com prazer. Lê-se pela mesma razão que se dá um beijo amoroso: porque é deleitoso, porque dá prazer ao corpo e alegria à alma.

As duas caixas. Já resumi minha teoria de educação dizendo que o corpo carrega duas caixas. Uma delas é a "caixa de ferramentas", onde se encontram todos os saberes instrumentais, que nos ajudam a fazer coisas. Esses saberes nos dão os "meios para viver". Mas há também uma "caixa de brinquedos". Brinquedos não são ferramentas. Não servem para nada. Brincamos porque o brincar nos dá prazer. É nessa caixa que se encontram a poesia, a literatura, a pintura, os jogos amorosos, a contemplação da natureza. Esses saberes, que para nada servem, nos dão "razões para viver".
A "caixa de ferramentas" guarda muitos livros: manuais, listas telefônicas, livros de ciências. Na "caixa de brinquedos" estão os livros de literatura e poesia que devem ser lidos pelo prazer que nos dão. Obrigar uma criança ou um adolescente a ler um livro de que não gosta só tem um resultado: desenvolver o ódio pela leitura. É o que acontece com os jovens que, preparando-se para o vestibular, são obrigados a ler os "resumos". A receita certa para destruir o prazer da leitura é colocar um teste ao seu final para avaliar o aprendido. Ou pedir que se faça um fichamento do livro lido.

Leis e direitos. Numa parede da escola se encontravam as "leis". Mais importante que as leis era o fato de que elas tinham sido sugeridas e aprovadas pela assembléia de alunos. Aquele documento representava a vontade coletiva de crianças, professores e funcionários. Era o seu "pacto social" de convivência. Lembro-me de alguns itens. "Todas as pessoas têm o direito de dizer o que pensam sem medo." "Ninguém pode ser interrompido quando está falando." "Não se deve arrastar as cadeiras fazendo barulho."

O item que mais me comoveu e que é revelador da alma daquelas crianças foi esse: "Temos o direito de ouvir música enquanto trabalhamos, para pensar em silêncio." Entendi, então, a razão da música clássica que se ouvia baixinho.
Acho bem e acho mau. Ao final da minha caminhada inaugural pela Escola da Ponte, a menina me indicou um computador. "Nesse computador se encontram dois arquivos", ela explicou. "Um se chama acho bem, o outro, acho mal." Qualquer pessoa pode usar o computador para comunicar aos outros o que acha bem e o que acha mal. Um ninho de passarinho num galho de árvore, um ato do presidente da república, o aniversário de um colega, um livro divertido - tudo isso pode estar no acho bem. No acho mal, eu encontrei: "Acho mal que o Fernando fique a dar estalos na cara da Marcela." pensei logo: "Esse é candidato ao tribunal..."

As crianças haviam aprendido que há palavras grosseiras, chulas, que não devem ser usadas. No seu lugar usam-se outras palavras sinônimas. É o caso do verbo "cagar", que não deve ser usado em situação alguma. Mas pode-se usar o sinônimo "defecar" que, sem ser elegante, pelo menos não ofende. Pois uma menina escreveu: "Acho mal que os meninos vão a defecar na privada e deixem a tampa toda cagada." Menina genial! Ela sabia que o dicionário estava errado. Cagar e defecar não são palavras sinônimas, muito embora o dicionário assim o declare. Se ela tivesse escrito "Acho mal que os meninos vão a defecar na privada e deixem a tampa toda defecada", sua indignação teria perdido toda a força literária. Porque aquilo que os meninos faziam na tampa da privada não era defecar; era "cagar" mesmo, uma coisa chula e grosseira.
O todo e as partes. A menina já me havia informado do princípio central da pedagogia da Escola da Ponte, ao me explicar como os miúdos aprendiam a ler: "Aqui não aprendemos nem letras e nem sílabas. Só aprendemos totalidades." As disciplinas isoladas são o resultado da tendência de análise e especialização que caracterizam o desenvolvimento das ciências ocidentais. A nona sinfonia, de Beethoven, não é o conjunto de suas notas. Ela não se inicia com notas e acordes. A totalidade vem primeiro e é só em relação a ela que as partes têm sentido. Assim é o corpo: uma entidade musical.

Nenhuma de suas partes tem sentido em si mesma. É a melodia central do corpo que faz as partes dançarem. Mas os nossos jovens, diante do vestibular - e é preciso não esquecer que os programas das escolas se orientam no sentido de preparar para o vestibular -, trazem consigo as partes desmembradas de um corpo morto: uma soma enorme de informações que não formam um todo significativo. Física, química, biologia, história, geografia, literatura, como se relacionam? Fazem-se então esforços inúteis de interdisciplinaridade. Inúteis porque o todo não se constrói juntando-se as partes.

Brincar é coisa séria. A Escola da Ponte me mostrou um novo mundo em que crianças e adultos convivem como amigos na fascinante experiência de descoberta do mundo. Aprender é muito divertido. Cada objeto a ser aprendido é um brinquedo. Pensar é brincar com as coisas. Brincar é coisa séria. Assim, brincar é a coisa séria que é divertida.

Quando falo que me apaixonei pela Escola da Ponte, estou dizendo que amo aquelas crianças. Gosto delas. e elas também gostam de mim. Voltar à Escola da Ponte já está se tornando rotina. Quando lá chego, sou afogado por centenas de "beijinhos". Comove-me a amizade daquelas crianças. Sinto que o maior prêmio para um professor é quando os alunos se tornam amigos dele. Um verdadeiro professor nunca sofre de solidão.
Uma entrevistadora brasileira perguntou a uma menina: "Quem é Rubem Alves?" a menina respondeu: "É um velhinho que conta estórias." As crianças podem me chamar de velhinho. Não me importo. Mas somente elas."

*Rubem Alves é escritor, autor de dezenas de livros, entre eles A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir, em que conta sua experiência na Escola da Ponte.